quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
TEMPESTADE VEM
Lei de Murphy: O criador dessa lei foi o capitão da Força Aérea americana, Edward Murphy, e também foi a primeira vítima conhecida de sua própria lei. A Lei de Murphy tira vantagem da nossa tendência de enfatizar o negativo e não perceber o que é positivo. Ela se baseia nas leis da probabilidade - a possibilidade matemática de que algo vai acontecer.
Eu deveria estar escrevendo mais um capítulo sobre as confusões de Alice, mas andei me frustrando com o desenrolar dos acontecimentos. O fato é que com a popularidade (nome de um livro que estou escrevendo há mais de uma década) das Redes Sociais, os blogs andam acumulando poeira – poeira de leitores e poeira de bloggers. Minha preguiça em divulgar e ler outras publicações também não me ajuda muito. Tenho vários capítulos escritos, sei o que acontecerá no final, mas o tesão não está comparecendo, portanto deixo ela guardadinha na gaveta da saudade... Por enquanto.
Gosto muito de escrever sobre desventuras, talvez isso seja consequência de uma tal Lei de Murphy, tão colada a mim que desconfio ser minha irmã gêmea siamesa. Desde que conheci essa maldita lei, vi minha vida mudar. Buracos surgiam no meio das ruas; assaltantes ninjas roubavam meus pertences; cachorros famintos mordiam meu traseiro... E o que eu fazia para me defender? Apenas tirava proveito de tudo... Escrevendo, é claro!
Estava um dia maravilhoso, o sol na medida certa e os passarinhos tiveram o bom senso de não cantarem em minha janela. Se eu não tivesse acordado atrasado e por culpa de um pesadelo envolvendo zumbis aquáticos, até poderia declarar que seria um dia perfeito.
Vesti minha bermuda branca, minha melhor camisa, meu tênis vintage, me vi lindo e pronto para sair de casa e correr para reunião do teatro. Estava com a ideia ilusória que naquele dia talvez tivesse êxito ao trabalhar o meu lado social. Aliás, nunca estive tão anti-social como nos últimos tempos. A pressa e Murphy, mais uma vez ele, me fizeram sentir fome. A fome e Murphy me fizeram querer beber achocolatado. A pressa, a fome, a falta de atenção e Murphy me fizeram derramar o achocolatado na bermuda branca e assim tive que mudar todo o figurino. Ao colocar o pé na rua, minha figura já não era linda, nem alegre, nem nada que valesse uma música de bossa nova.
O trajeto até o ensaio só serviu para provar que zumbis aquáticos quem sabe até fossem gente boa. O céu começava a ficar escuro e o relógio a me dar sinais de que estava atrasado.
Quando cheguei à estação de ônibus, quebrei uma promessa. Costumo defender a ideia de que nunca, em hipótese alguma, correria para pegar qualquer tipo de meio de transporte. Minha reputação já estava morta, enterrada e recebendo flores. A luta foi tão grande para entrar no veículo, que nem percebi que não estava fazendo a coisa certa. Existem três tipos de linhas de ônibus. A primeira é a linha do tipo PARADOR, ela vai parando em todas as estações. Depois, linha do tipo EXPRESSO, para em algumas e ignora outras. Para finalizar tem as linhas DIRETAS, essa não para em nenhuma estação e é perfeita para quem precisa ir de uma extremidade à outra. Bem, eu só precisava descer na estação seguinte, mas como Murphy estava ali dando beliscões em minhas nádegas, obviamente eu tinha entrado na linha DIRETA.
Quando me dei conta da burrada cometida, passei pelo habitual hiato de três segundos antes de perceber que deveria estar me sentindo desesperado. Gargalhei internamente, de verdade, pela situação em que me encontrava. Olhei para o relógio, já estava uma hora atrasado e desejava que algum tipo de acidente pudesse me tirar de dentro daquele ônibus, contudo algo que não piorasse mais o meu visual.
Continuei pensando na melhor maneira de lidar com aquela situação. A melhor maneira de lidar com aquela situação seria me matar, mas a segunda melhor maneira era tentar me distrair com música, nesse instante comecei a apimentar a minha vida ouvindo Spice Girls, pois elas sempre conseguiram me deixar feliz.
Eu poderia ter me sentido muito animado ao descer do ônibus, e, de certo modo, até faria sentido, afinal de contas passei por quarenta e três estações rodoviárias – sendo que vinte e duas delas de forma desnecessária -, mas meu atraso já tinha contabilizado duas horas e uma chuva assustadora tornava tudo mais difícil. Quase chorei ao chegar à rua e encontrá-la alagada. Um rio repleto de doenças me separava de meu destino. Agradeci por não ter saído com a bermuda branca e o tênis vintage, porém isso não trazia luz ao meu dia de trevas... O mesmo não posso dizer da motocicleta que parou ao meu lado. Era um senhor de aparentemente quarenta e três anos (escolhi esse número para combinar com as malditas estações), ele me ofereceu ajuda para passar pela água. Lá estava eu na garupa de um desconhecido de aparentemente quarenta e três anos.
Mas, de qualquer modo, toda essa sequência de desventuras talvez servisse como trampolim para longas e divertidas conversas que poderia ter com o resto do elenco, uma vez que rir das desgraças da vida é algo maravilhoso. Não demoraria muito para trocarmos experiências, combinarmos saídas para eventos, firmarmos uma amizade verdadeira a ponto de criarmos vínculos fraternais...
Bem, quando cheguei à reunião, não aconteceu nada disso comigo e com o resto do elenco. Continuei destacado dos demais, tentando me infiltrar entre um assunto e outro. Na verdade a reunião já tinha terminado e eu estava muito sem graça por ter me atrasado tanto.
Não lembro ao certo com a história terminou. Talvez eu apenas tenha tirado proveito de minha invisibilidade para relaxar num canto qualquer. As Spice Girls cantando Viva Forever deixava tudo mais irônico e cretino. Tão irônico e cretino como eu. Por fim, fechei os olhos e voltei a gargalhar internamente, pois é isso o que sempre faço para fugir dos problemas. Sou o tipo de pessoa que vê a vida de uma forma crítica e cretina... Que ri de si mesmo, quando na verdade é pra chorar.
sexta-feira, 26 de dezembro de 2014
CAPÍTULO 6 - O GATO... RAW
ALICE NO FUNDO DO POÇO
EPISÓDIO DE HOJE:
O GATO... RAW!
Narcisismo: Mais popularmente conhecido como "Complexo de Dora", descreve a característica de personalidade de paixão por si mesmo.A palavra é derivada da Mitologia Grega. Narciso era um jovem e belo rapaz que rejeitou a ninfa Eco, que desesperadamente o desejava. Como punição, foi amaldiçoado de forma a apaixonar-se incontrolavelmente por sua própria imagem refletida na água. Incapaz de levar a termos sua paixão, Narciso cometeu suicídio por afogamento.
Quando Alice
Maravilha acordou naquela interminável sexta-feira 13, e coincidentemente seu
aniversário, não imaginava que estaria
tomando chá com seu ídolo da adolescência. Três foram as vezes que derramou o
chá em seu vestido lilás e definitivamente não conseguia engolir aquela bebida,
não com aqueles olhos verdes e hipnotizantes em sua frente.
— Mas... Mas...
Eu olhei o seu lixo e estava cheio de lenço de papel, achei que estivesse
resfriado...
— São da babá!
Laraxita pegou uma gripe fortíssima.
Muito bem feito,
a pessoa se propôs a vasculhar o lixo alheio, mereceu mesmo esse tipo de revés na
vida. Não pensem que sou contra Alice, mas chega um momento que não dá pra
defender.
A cara de nojo
de Alice ao se livrar dos lenços furtados eram dignas de um quadro. Tentou
mudar de assunto. O Gato fazia tipo, transparecia indiferença. Sua vida não
havia mudado após o fim da banda Flop4; Não parecia ter envelhecido, ou
amadurecido. Era um artista em processo. Tentou fazer novela, mas após uma
briga com o diretor, seu personagem morreu pisoteados por hippies militantes
numa causa estranhíssima: o casamento entre homens e cabras. Obviamente ele
culpava os críticos por não compreenderem sua interpretação robótica, fruto de
meses de treinamento em lojas de brinquedos especializados; Sua segunda aposta
foi no ramo do Reality Show, porém ninguém se interessou num programa chamado
“Me olhe e me inveje”, onde o Gato seria observado por 24 horas e no final
receberia o prêmio de 5 milhões; Quando já beirava a miséria, chegou a ser
sondado pelo maravilhoso mundo mágico da pornografia, mas não estava tão
desesperado assim. Hoje em dia o Gato se mantém fazendo presenças em eventos ou
atacando de DJ.
— E quanto a
Flop4, tem contato com os outros integrantes da banda? — perguntou Alice, na
primeira pergunta que realmente não sabia a resposta.
— Não falo sobre
a Flop4!
— Por quê? Eram
ótimos juntos. — Sentiu que aquela era a hora de colocar seu plano em ação.
Conhecia bem aquele homem, seu principal defeito era ego... O dele e de muitos
outras pessoas que conheço. — Soube que estão pensando em voltar como um
trio...
— O que? Não
falaram comigo! — Gato já havia se levantado e andava de um lado para o outro.
— Jamais farão sucesso sem mim, sou a alma do grupo, o belo, a estrela!
— Eu também acho
e até tentei argumentar com eles, mas pareciam decididos a voltar sem você. —
Alice ligou seu gravador. — Então, qual o seu desejo?
— Eu... Eu quero
voltar para Flop4!
Parabéns! Conseguiu
sua matéria de capa!
Não muito
satisfeita continuou a gravar.
— Só uma
dúvida... Porque era pai de bichinhos virtuais? Nunca pensou em ter filhos?
Veja bem, não me entenda mal, mas você é lindo, mora numa casa enorme...
Imagina como seriam lindas as suas crianças.
— A verdade é
que nunca encontrei uma mulher que fosse merecedora... Do meu... Do meu
corpo...
Alice jurou para
si mesma que controlaria a língua elétrica, mas isso era impossível. Era mais
fácil sair voando pela casa. Quando viu, já tinha perguntado.
— Está me
dizendo que você é... Virgem?
— Oi? — Lágrimas
nervosas brotaram dos olhos do Gato.
Ela achou aquilo
tudo muito fofo. Jogou a bolsa de morango para um lado, o gravador para o outro
e, por fim, jogou seu corpo roliço para cima do ídolo.
Estava disposta
a ajudar.
Alice, acima de
tudo, sabia ser muito prestativa.
AINDA ESTOU CHOCADO... MAS CONTINUA...
quinta-feira, 11 de dezembro de 2014
CAPÍTULO 5 - PÂNICO!
ALICE NO FUNDO DO POÇO
EPISÓDIO DE HOJE:
PÂNICO!
Cleptomaníaca: Pessoa que padece de cleptomania, que é um impulso mórbido que o leva a furtar coisas sem valor, apenas para satisfazer o "desejo".
Uma Pessoa normal manteria a calma
e esperaria tudo se resolver de forma civilizada. Uma pessoa como Alice Maravilha
preferia agir como culpada, correndo, ofegante, em direção à porta, gritando
por advogados e pensando para quem seria o telefonema que daria após ser presa,
já que era sozinha no mundo.
Dizem
que em situações de perigo o ser humano desenvolve alguns talentos antes
desconhecidos, isso explicaria aquela maçaneta quebrada em sua mão. Agora
estava trancada e o que a consolava era que sua força recém-descoberta poderia
ser útil quando estivesse na cadeia.
—
Então esse será o meu fim? Vou terminar meus dias na prisão, cercada por presidiárias
com taras estranhas? — começou a chorar compulsivamente e jurou que nunca mais
pegaria nada de ninguém, mesmo sabendo que não era verdade, uma vez que já
estava tentada com uma toalhinha perdida atrás do sofá.
Não
sei bem como se daria a vida de Alice na prisão, talvez um pouco mais
movimentada que a atual situação. Seria sortuda se conseguisse o coração de
alguma das tais presidiárias com taras estranhas, viraria a princesinha da
cela, quem sabe até se tornasse a Primeira Dama do presídio? Bem vantajoso para
quem nunca namorou, ascensão na carreira.
Uma
sirene de polícia ecoou por toda casa... Espere, como assim dentro da casa?
Aquilo não era uma sirene, era um grito agudo e irritante!
—Polícia?
Eu não roubei nada! — mentiu, após surripiar mais uma fotografia e dois bibelôs
da estante. Escondeu-se atrás das cortinas, formando um calombo na parede.
—
Socorro! Socorro! Socorro! Onde está? Apareça ou eu morro! — Um homem alto e
histérico gritava pela sala.
—
Por favor, não me prenda, hoje é meu aniversário e não quero ser presenteada
com uma noiva careca e fã da Ana Carolina! — Pode parecer deboche, mas Alice
estava toda trabalhada nas lágrimas. Abriu os olhos e ficou pensativa. Queria
entender a razão de terem mudado o uniforme da polícia.
O
homem usava um pijama e era azul bebê. O homem tinha cheiro de bebê! O suposto guarda
tinha o rosto pintado de verde abacate, seria camuflagem? Mas qual o motivo das
pantufas?
Ela
encarou o guarda. O guarda a encarou.
Finalmente
a ficha caiu.
Era
o Gato!
Sentiu-se
como Chapeuzinho Vermelho na frente do Lobo vestido de Vovozinha. Onde estava o
sorriso lindo? Que toca bizarra era aquela? Aquilo era outro sonho? Ou será
pesadelo?
—
Onde eles estão? — perguntou o ídolo.
—
No lixo! — respondeu a fã.
—
No lixo? Aqui só tem papel sujo, mas que brincadeira é essa, babá?
—
Oi?
Alice
não entendeu nada e, sem nenhum argumento, preferiu consolar o insano cantor
decadente que, por sua vez, já havia perdido a compostura. Tomado por total
descontrole, o artista ameaçou se jogar pela janela.
Tudo
já havia chegado ao seu limite. Alice agarrou o Gato pelo braço, chacoalhou-lhe
pelos ombros e deu-lhe umas cinco bofetadas.
—
Onde estão meus bebês? — choramingou o Gato.
—
Você nunca teve filhos!
— Não teria sentido contratar a senhora como babá se não tivesse filhos!
—
Sei tudo sobre a sua vida. Minha adolescência se resume em doces, pornografias
e revistas com você na capa!
Alice
era realmente uma esquisita e merecia todos os dramas que a vida lhe presenteava.
De
certa forma o cantor gostou de saber que ainda tinha uma fã. Por alguns
segundos sorriu, mas a aparência ainda estava grotesca.
—
Gosta mesmo de mim? Que sorte ter uma babá como você!
—
Eu não sou babá! Sou Alice...
—
Uma ladra?
Os
alarmes voltaram a berrar e os dois se abraçaram assustados.
—
Eu sou jornalista, vim pra fazer uma entrevista com você. Sou da revista No
Fundo do Poço!
A
palavra “jornalista” surtiu um efeito assustador naquele homem, ele correu
escada acima como se fugisse de um assassino de filme de terror, era muito
narcisista para ser visto pela imprensa naqueles trajes.
—
Volte aqui! Você está lindo... — Os berros foram em vão. A jornalista só voltou
a ver o homem uma hora depois, todo montado e lindo de morrer.
Enfim,
com a serenidade de um idoso oriental, Gato explicou que seus bebês, sua
companhia e família, nada mais eram que três bichinhos virtuais, curiosamente
chamados de: Lindo, Absoluto e Demais.
Alice
quase caiu desmaiada.
CONTINUA
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
CAPÍTULO 4 - UM MUNDO PERFEITO?
ALICE NO FUNDO DO POÇO
EPISÓDIO DE HOJE:
UM MUNDO PERFEITO?
Baixa Autoestima: A baixa auto-estima é caracterizada por uma percepção negativa de si mesmo. Pode ser expressa por crenças como ?eu sou um fracasso?, ?eu não sirvo para nada? ou por uma sensação de incapacidade ou menos valia que é muito difícil de a pessoa conseguir traduzir para si e para os outros.
Sabe quando você
acorda de bom humor e tudo fica magicamente lindo? Bem, eu sei, você sabe, mas
há bastante tempo que Alice não se lembrava como era essa sensação.
— Jamais imaginei que um dia estaria
na casa do Gato. Tudo é tão lindo, que me sinto feia... — Alice foi entrando sem
ao menos alguém abrir a porta, não comandava mais suas atitudes, apenas seguia
ordem da adolescente fanática e diabólica recém-liberada de seu interior.
— Paradinha aí querida! — disse uma
voz suave e assexuada.
— Aonde você pensa que vai? — Uma
segunda voz, agora mais grave.
— Mas que desastre é esse que meus
olhos estão vendo? Queria estar morta! — A terceira, e última voz, era
totalmente feminina.
— Quem são vocês? — Alice fez a mais
óbvia das perguntas, mas não havia mais o que perguntar.
— Me chamo Lindo!
— Eu sou Absoluto!
— E eu Demais!
Alice perdeu o dom da fala. Aquele
trio causava uma mistura de medo e escárnio, cada palavra tinha sua própria
coreografia, cada olhar possuía uma pose de modelo internacional. Aquilo não
podia ser sério.
— Muito prazer, eu sou Alice
Maravilha, colunista da conceituada revista “No Fundo do Poço”. Tenho uma
entrevista marcada com o Gato e não posso perder tempo com vocês.
—
Fofinha, isso é impossível. O Gato não recebe pessoas com problemas de baixa
autoestima! — respondeu o Lindo que era só crueldade. — Essa roupa você pegou
emprestada com o elenco de Barrados no
Baile?
— Alice Maravilha? — debochou Demais
— Obrigada Deus por este dia! Queridinha, me diga, onde está escondida a sua
maravilha?
Alice baixou os olhos, estava se
sentindo uma ridícula, mas no fundo achava aquele trio infinitamente pior.
Olhou para Absoluto, o único que não tinha se manifestado, o rapaz tinha a
expressão de uma porta, era indecifrável.
— E você? Não tem nada pra me dizer?
— desafiou Alice.
— Você é uma feia. — respondeu
Absoluto.
— Eu não sou feia... Só tenho uma
beleza diferente...
— Que bonitinho, eu acredito em
você... E você? Acredita em você? — desafiou Absoluto.
— Se quer mesmo falar com o Gato,
precisa fazer jus ao seu nome. É de seu interesse ficar um pouco mais
confiante, bonita? — perguntou Demais. O que Alice podia fazer? Queria ser
aceita e, portanto, aceitou.
Fechou os olhos.
Luzes de gelatina, cheiro de
chiclete de morango, pipocas coloridas explodiam. A sala era uma pista de
dança. Coelhos dançarinos flutuavam ao som de uma música envolvente.
Era tudo lindo e ela já se sentia
linda também.
De repente, uma fileira de espelhos
surgiu em sua frente. Todos com formatos diferentes e aroma de hortelã. Cada
espelho refletia uma nova Alice. Alice linda. Alice magra. Alta. Loira. Negra.
Homem... Homem? Seu “Eu” masculino era interessantíssimo. Tinha olhos
expressivos e sorriso angelical. Ela já estava apaixonada. Apaixonada e
confusa, afinal de contas estava amando seu próprio Eu! Aquilo era se amar? Sim...
Ela se amava.
— EU ME AMO! — gritou uma jornalista
louca e hipnotizada, no meio de uma rua movimentada. Quanto tempo estava parada
ali, namorando a casa de um artista decadente? Não fazia ideia. Já era a
segunda vez no mesmo dia que tinha sonhos lúdicos e esse clichê já a estava
preocupando.
Envergonhada, descontrolada e, até
mesmo, um pouco assanhada, correu em direção a casa e tocou a campainha.
Não foi recebida por coelhinhos
extravagantes, mas sim por uma governanta idosa e simpática. A casa também não
tinha pipocas, gelatinas ou gatões saindo de espelhos, não que isso
significasse ser aquela uma residência normal. Todas as paredes eram estampadas
com fotos do antigo cantor. Alice tudo fotografava, tudo tocava, tudo queria.
A governanta saiu em busca de um
café para a visitante, ou seja, uma fanática incontrolável estava sozinha na
sala de seu ídolo.
— Preciso me controlar. — Sentou-se
no cafona sofá de couro, cruzou os braços e as pernas. O coração disparava a
ponto de sufocá-la. — O que será que tem no lixo do Gato? — Sem nenhum nojo, ou
mesmo bom senso, passou a revirar a lata de lixo. — Quanto lenço de papel...
Será que o Gato está resfriado? Coitadinho... — E muito animada guardou aquele
lenço nojento no bolso do vestido.
Um alarme disparou.
ÓBVIO QUE CONTINUA
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
CAPÍTULO 3 - FELIZ ANIVERSÁRIO
ALICE NO FUNDO DO POÇO
EPISÓDIO DE HOJE:
FELIZ ANIVERSÁRIO
— Francamente, preciso ser mais
rigoroso na contratação dos funcionários... Alice! — Salgado não era muito mais
velho que Alice. A barba por fazer, os cabelos loiros com alguns fios brancos
lhe dava certo charme. O fato é que só estava naquela posição por ser filho do
patrão, o Salgado Pai. Sabe aquele sujeito que todas flertam a primeira vista,
porém depois de conhecer querem distância? Então, era ele!
—
Oi? — Respondeu a Bela Adormecida. Esfregou os olhos, deixando borrar sua
maquiagem. Arrumou rapidamente os papéis de sua mesa, e apagou o
“sdfalçdsfklfkf~ldsafffffffff...” que havia escrito involuntariamente ao dormir
com a cara no teclado do computador.
—
Explique!
—
Salgado! Nossa... Acabei adormecendo...
—
Com a cara no teclado?
—
Anomalia de família. Só consigo dormir assim. Meus pais só dormiam de ponta
cabeça, uma loucura! Vovó só pega no sono se alguém lamber seu pé em movimentos
lentos e circulares
—
Minha nossa! Esqueci o que vim fazer aqui...
—
Salgado, Salgadinho, precisa se tratar. Vive esquecendo as coisas, amigo. Outro
dia veio trabalhar de gravata e sem camisa... Parecia um gogo boy com baixo
orçamento.
—
Hoje é terça ou quarta-feira?
—
Sexta-feira...
— Treze!
—
Sim?
— Feliz aniversário!
Que lindo, não lembra o nome completo, mas se recordou do meu aniversário, pensou Alice.
Que lindo, não lembra o nome completo, mas se recordou do meu aniversário, pensou Alice.
No rádio, uma mulher de voz
irritantemente aguda, anunciava o horóscopo. Tinha certeza que seria um dia
péssimo. Seus aniversários não eram felizes, o mais alegre foi no hospital,
braços e pernas quebrados, tinham lhe empurrado do brinquedo mais alto do
playground, mas pelo menos tinha comida e pessoas lhe dando atenção.
As últimas palavras da radialista
com voz de pata fizeram os pelos da nuca de Alice arrepiar. Ela terminava
assim: “Tudo pode melhorar em sua vida, se você completar a sua missão. Ainda
hoje você receberá um sinal que será...”. Jamais saberia o sinal, pois Salgado
desligou o rádio da tomada, e a olhava como um leão faminto frente a uma lebre
suculenta.
— Tenho um presente. Vai escrever
sua primeira matéria de capa! Uma entrevista com algum artista decadente!
—
Não brinca! Quem?
Na mesma hora sentiu um foco de luz
iluminar seu corpo e o som de palmas, muitas palmas. Já conseguia se imaginar
subindo por uma escada dourada, usando um vestido maravilhoso que deixaria
todas as mulheres e gays se cortando de inveja. Receberia um prêmio e por culpa
disso apresentaria um programa de televisão. Mães batizariam suas filhas com
seu nome, teria sua própria linha de brinquedos e...
— Alice? — berrou o chefe, e
estragou toda a fantasia.
O entusiasmo de nossa querida Alice
Maravilha é porque realizaria o maior sonho de sua vida. Foi escalada para
entrevistar um dos ex-integrantes da Flop4, isto é, se continuasse viva até lá.
Dez anos se passaram desde que a banda acabou e agora ela poderia rever os
olhos azuis do rapaz com quem se imaginava casada, morando numa casa de frente
para o mar, com três filhos loirinhos, falando inglês e criando um casal de
poodle. Ele era lindo, ele era forte, ele era o sonho de consumo de todas as
garotinhas abobalhadas do mundo. Ele era “O Gato”!
CONTINUA
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
CAPÍTULO 2 - A MALDIÇÃO DOS GATINHOS ARTISTAS
ALICE NO FUNDO DO POÇO
EPISÓDIO DE HOJE:
A MALDIÇÃO DOS GATINHOS ARTISTAS
Eluromania: Amor excessivo aos gatos.Pessoas que amam mais aos gatos do que os humanos; não medem esforços para salvar os gatos e alimentá-los.
Algumas pessoas chegam a alugar imóveis só para ocupação dos gatos.
— Eu não entendo... — Foi o mais lúcido que Alice conseguiu formular. Como
assim a culpa era dela? Não, tudo bem, Alice não era nenhum exemplo de
sanidade, possuía um imã para confusão que era surreal, mas desta vez parecia
inocente.
—
Estamos nos separando porque você é uma gorda! — acusou o líder da banda.
—
Oi? — Exatamente, OI? Depois de toda aquela loucura o cara diz que a banda está
se separando pelo fato de uma fã estar acima do peso. Não vejo sentido nisso.
Num segundo todos os adolescentes
malvados ali presente começaram a gritar em coro: “Gorda, gordinha, gordona”.
Alice não sabia onde enfiar a cara. Desejou estar ao lado da magricela para
poder se esconder no meio da mata que era o tal cabelo ruivo.
— Eu não sou gorda! Foi um
feitiço... Um feitiço que a velha do gato me jogou... — gritou Alice, e
oficialmente a história perdeu todo o sentido. As pessoas olhavam espantadas, a
banda parecia ter sido congelada. Até mesmo um passarinho que pretendia fazer
suas necessidades na cabeça de Alice, mudou de ideia.
Todos sentados? Peguem a pipoca, aí
vem mais uma história:
Morava num imundo quartinho de uma
velha pensão no subúrbio. Já tinha se convencido que morar sozinha não era nada
mágico como iludiam os filmes americanos. Para início de conversa a dona da
pensão era uma verdadeira bruxa e chamava-se Dona Gatarina. Isso mesmo, Dona
era o primeiro nome, Gatarina o segundo. Obviamente Dona Gatarina tinha paixão
por gatos e fedia a fezes felinas. Além do vício por bichanos, a proprietária
da pensão tinha outra mania: Televisão! Por isso todos os gatos tinham nomes de
celebridades, era Senhorita Hebe pra cá, Dona Glória Maria pra lá, tinha o
Senhor Marlon Brando, que ela amava.
Certa noite Alice voltava mais uma
vez de seus encontros às escuras. Tinha bebido uma ou dezessete. Abriu com
muita dificuldade a porta e andou fazendo o chão ranger. Por que ela fez isso?
Num piscar de olhos começaram a surgir gatos e mais gatos. Vinha da janela, da
porta, ela pode jurar que viu um se materializando do nada. Alice detestava
gatos. Houve uma época em que achava todos fofos, dava até leitinho, mas a
amizade com os felpudos não durou muito tempo, quando uma gata de nome Winona
roubou a comida de seu prato. Os felinos caminhavam - e miavam - até Alice. Ela
sabia que se Dona Gatarina acordasse, com certeza estaria frita, ou na rua. Os
gatos continuavam com o escândalo, pareciam cantar uma mistura de Macarena e
Saudosa Maloca. A garota pensou em escapar pela esquerda, mas não tinha nada na
esquerda, enfim, ela estava bêbada. Seguiu em frente. Desviou se de um gato
gorducho de nome Jô Soares, ignorou o charme que o Senhor Fabio Junior lhe
mandava. Estava quase na porta do seu quarto, quando aconteceu um imprevisto.
Ela se distraiu com a esquelética e fumante Senhorita Winehouse, e acabou
tropeçando na abundante Gata Melancia, que miou em velocidade cinco. Alice
tinha perdido o equilíbrio, tentou segurar em algo, mas não tinha nada ali. Ela
ia cair. Ela caiu. Um miado agourento tomou conta do recinto. Alice ouviu uma porta
se abrir, ao mesmo tempo em que um trovão explodia lá fora. Dona Gatarina tinha
acordado. A moça estava estatelada no chão, tinha caído em alguma coisa macia e
temia muito saber o que era. Quando Dona Gatarina surgiu, usando sua camisola
velha com estampa do Piu Piu, teve um ataque de fúria. Alice encontrava-se em
cima de seu gato preferido, um perneta de nome Roberto Carlos.
Foi naquela noite que recebeu a
maldição.
A partir daquela noite, toda vez que
Alice ouvisse uma música de Roberto Carlos, engordaria um quilo, até explodir. Desde
então os especiais de fim de ano se tornaram um tormento para a garota...
A história era bizarra. Todos a
olhavam boquiabertos. A Flop4 já não estava mais no palco. Ela ouvia alguém
gritar o seu nome insistentemente. Num piscar de olhos os adolescentes
desapareceram. A voz continuava a gritar, era uma voz conhecida e possuída por
ódio, uma voz masculina. Onde ela estava? Então aquilo era um pesadelo?
Aquilo era um pesadelo! Alice
acordou, suada, os óculos tortos. Seu chefe, o déspota, Salgado Filho, fuzilava
com os olhos.
CONTINUA...
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
CAPÍTULO 1 - A CULPA É DA GORDA!
ALICE NO FUNDO DO POÇO
EPISÓDIO DE HOJE:
A CULPA É DA GORDA!
BALZAQUIANA: Mulher na faixa dos 30 anos. Há quem empregue a palavra balzaquiana de forma pejorativa e até negativa. Mas, na realidade, é com 30 anos que as mulheres chegam ao seu ápice: mais maduras, realistas e vividas, elas esbanjam sensualidade e realização.
Para início de
conversa seu quarto era lilás, mas não pensem vocês que estou falando de um
lilás discreto, estou falando do lilás berrante, enjoativo e com cheiro de
chiclete. Parte dessa tinta lilás era coberta por pôsteres de inúmeros astros
adolescentes e fotografias... Muitas fotografias. Ah, claro, também havia uma
estante com os mais diferentes bichinhos de pelúcia, todos delicadamente sentadinhos,
separados por tamanho, cor e idade. Todos fofos, fofíssimos.
Era um típico quarto infantil, qual
o problema nisso? Problema nenhum... Se ela FOSSE uma criança!
Alice tinha trinta e dois anos!
Alice Maravilha, trinta e dois anos,
jornalista, solteira e sem filhos. Altura mediana, acima do peso, voz fina.
Ocupa o tempo indo sozinha ao cinema, preferencialmente para ver algum “filme
de chorar”. Apesar de ter pouquíssimos amigos, todos virtuais, dizia odiar
livro de autoajuda e ria de todas as mulheres frustradas que reclamavam da
vida. Alice era uma mulher frustrada, mas nunca reclamava de nada, ou pelo
menos nunca exteriorizava seus problemas... Mesmo porque, faria isso pra quem?
Quando Alice acordou aquela manhã,
estava mais feliz que vencedora de Reality Show. Com sua camisola de gosto
duvidoso, pulou da cama e correu pela casa cantarolando desafinadamente o
sucesso de sua boyband preferida: a Flop4.
Boyband é como chamamos um grupo de
cantores pop. Geralmente todos são lindos e, na maioria das vezes, não cantam
tão bem, mas quem se importa?
Conheceu essa banda quando voltava de
um encontro desastroso, na verdade nem podemos caracterizar como encontro
quando a pessoa espera, por mais de duas horas, alguém que conheceu pela
internet. Alice já estava se afogando nas próprias lágrimas quando começou a
ouvir a música que a transformaria. Era a Flop4! Ela limpou o rosto, estufou o
peito e tomou a decisão mais importante da vida. Ia aprender a se socializar
fora da internet e criar relacionamentos sadios e felizes? Claro que não! Ia se
tornar a presidenta de fã-clube. Gastou metade do salário em camisas, pirulitos
e, é claro, no ingresso do primeiro grande show ao vivo.
Quatro dias passando fome, sede, frio,
acampada na porta de um estádio de futebol, entretanto se realizaria. Ficaria
frente a frente à Flop4!
Óbvio que as coisas não aconteceram
magicamente como imaginara.
Assim que os portões se abriram, uma
grande onda, praticamente um tsunami de adolescentes histéricas, surgiu
derrubando quem estivesse na frente, ou seja, Alice!
Foi uma verdadeira aventura
conseguir um bom lugar, se é que pode se chamar de bom lugar ficar entalada
entre um anão oriental e uma magricela de cabelo ruivo e volumoso. Quando a
banda surgiu no palco, ela esqueceu tudo e sentiu vontade de gritar, mas não
podia, o anão pisou em seu pé e o cabelo da ruiva entrou em sua boca, para
piorar tudo, uma desesperadora vontade de fazer xixi, apoderou-se da mulher.
Queria pular,
dançar, e, acima de tudo, ir ao banheiro. Jurou que nunca mais beberia nada antes
de sair de casa, juramento esse que sabia que seria em vão, pois água era um
importante ingrediente da nova dieta revolucionária que estava seguindo. A
dieta do sol: você só pode comer até o sol se pôr, depois disso, só podia
ingerir água. O resultado era que agora estava ali se contorcendo, aflita e com
ódio de revistas femininas para mulheres gordas.
Seu conforto era que ninguém a
notaria naquele lugar, pois além das luzes malucas e da fumaça colorida, as
pessoas preferiam dar atenção a tal da magricela de cabelos rebeldes e ruivos
que, naquele instante, arrancara toda a roupa, deixando muito animado o anão de
descendência oriental. Um cheiro de desodorante duvidoso tomou o nariz de
Alice, estava impossível respirar, nunca esteve numa situação tão desesperadora
desde o dia em que pegou seus avós, na cozinha, pelados e cobertos de farinha
de rosca, quando tinha oito anos.
Depois de uma abertura clichê com
efeitos pirotécnicos e fumaça, a banda surgiu no palco. Eles voavam com a ajuda
de cabos de aço e a multidão gritava ainda mais.
A banda era formada por quatro
integrantes, dois rapazes e duas moças. Cada um vestia um personagem, um
estereótipo cuidadosamente criado para gerar identificação junto aos fãs: O
Louco, o Gato, a Malvada e a Fofa.
Enquanto era jogada de um lado para
o outro, para cima e para baixo, Alice tentava cantar a música da banda.
Descabelada, ainda sorria. A primeira música havia chegado ao fim e ela ainda
estava viva. Sorte pra quem?
Foi neste exato momento que
aconteceu o que ninguém esperava: A Flop4 interrompeu o show e anunciou o fim
da banda!
Alice sentiu as pernas tremerem, o
coração parecia sair pela boca. Num passe de mágica as pessoas começaram a se
afastar, o tsunami adolescente havia se transformado no mar vermelho e começava
a se abrir e Alice, no meio, era como se fosse Moisés!
Os integrantes
da banda encaravam a garota. A garota encarava os integrantes da banda. As
outras pessoas encaravam a garota e os integrantes da banda. Alice nada
entendia.
Os quatro membros
da Flop4 apontavam para ela. Sentia quatro dedos em sua testa.
—
Não! Não podem se separar! Minha vida se resume a vocês! Eu sou feia, gorda,
chata, ninguém gosta de mim, mas eu tenho vocês... — berrou Alice, sua voz
ecoou em meio à multidão, que começou a vaiar, mas ela não deu de ombros e
seguiu decidida em direção ao palco.
— Será que ela está drogada? —
perguntou uma moça.
— Você disse armada? — perguntou
outra.
— Só se for com uma barra gigante de
chocolate.
Sem saber de onde havia tirado forças,
Alice já tinha escalado o palco e se perguntava onde estariam os seguranças.
Estava furiosa.
—
Passei mais de uma noite, acampada, só pra ver o show de vocês! Dividi uma
barraca laranja com um anão japonês tarado e com uma ruiva excêntrica chamada
Cleide. Se vocês acabarem, eu morro! Vocês são a Flop4! Não podem se separar...
Vão se tornar cantores solos e fracassados que lançam um disco e depois caem no
esquecimento!
De repente uma melodia lúdica se
iniciou. Dançarinos brotaram no palco. Alice nada entendia, mas também não
conseguia falar e, mesmo se conseguisse as palavras já não habitavam sua
cabeça. Foi rodeada pelos cantores, logo não eram mais um quarteto, se
multiplicavam e também mudavam de cor. Unidos eles cantavam, dançavam, sorriam
e voltavam a cantar num looping eterno a música de uma só frase: “A culpa é da
gorda”.
CONTINUA...
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